19 julho 2005

Em busca de formas mais harmoniosas

Quando li este artigo, fiquei pensando em como seria
tudo mais facil, se nós aprendessemos a ver o próximo
como a nós mesmos, para tanto é necessário que
reflitamos sobre isso e se trabalhe a homofobia
internalizada em muitos de nós. Quando fundamos a
INOVA, pensamos muito em que nome dar, pensamos em
famílias homoafetivas, famílias da diversidade, enfim,
mas por fim, pensamos que o melhor seria FAMÍLIAS
GLTTB, afinal nossa missão é a família, não importa
onde ela se manifeste e em que pilares, ela foi
construída.

Em busca de formas mais harmoniosas




Ao ler a matéria publicada no G Online, mais
especificamente no Blog G, sobre a intenção do
honorável GGB (Grupo Gay da Bahia) em processar Miguel
Falabella, autor da novela global A Lua Me Disse, por
caricaturar os gays em sua obra, mais uma vez me vi
diante de um assunto que venho levantando há anos: o
preconceito contra os efeminados e as masculinas.

O pior é que devido a homofobia internalizada esse
preconceito vem mais da parte dos homossexuais do que
dos héteros.

Já senti o preconceito dos meus “iguais” na pele. Era
efeminado e, por não ser aceito nem pelos héteros e
nem pelos gays, me efeminei por completo e me tornei
travesti. Nunca esqueço a frase que disse quando, aos
22 anos, tomei a decisão: “Vou virar travesti para ser
amado”.

Comigo foi assim. Porém, a questão é: por que existem
homens efeminados e mulheres masculinas?

Ser feminino ou ser masculina está ligado à identidade
de gênero e isso muitas vezes não corresponde nem ao
sexo biológico e nem à sexualidade da pessoa. O
psicólogo Claudio Picazzio, autor de “Diferentes
Desejos”, explica bem essa questão quando fala dos
“quatro pilares da sexualidade”. Um exemplo simples
que ilustra essa questão é que existem muitos
travestis que gostam de mulher.

Como a sociedade denomina o gênero de uma pessoa a
partir de seu sexo biológico, a discussão fica
limitada nessa bipolarização de gêneros da qual a
androginia não faz parte. Porém, a androginia sempre
esteve presente na história da humanidade. Tanto na
Grécia, como na Roma antiga, os efeminados e as
masculinas já se faziam presentes, como provam as
estátuas de Koré, lindas ninfas com corpos musculosos
de Adonis, e os famosos eunucos (um deles, segundo a
História, teria sido casado com Nero).

Precisamos acabar com esse preconceito ridículo de que
homem feminino e mulher masculina não são aceitáveis.

Há muito que venho lutando contra o “preconceito
espelhado”, pois minha experiência de vida mostra que
são raríssimos os gays que não “dão pinta”. Não estou
falando da desmunhecação exacerbada dos personagens
gays em programas humorísticos, cujo objetivo é o de
satirizar. Falo de uma diferença natural que a maioria
dos homossexuais têm, seja no falar, no andar e até no
olhar, que os difere da maioria dos homens
heterossexuais. E que em nome de uma identidade social
“aceitável” eles tentam a todo preço disfarçar.

Há pouco tempo, na Arábia Saudita, um grupo de
homossexuais foi condenado a chibatadas e meses de
prisão por participarem de uma festa gay. Dois
homossexuais do mesmo grupo tiveram suas penas
multiplicadas por dez porque eram efeminados.

Ser efeminado, assim como ser masculino, é uma
característica inerente à natureza da pessoa. Alguns
conseguem camuflar, outros não. Prova maior é a dos
dois gays árabes que mesmo na eminência de uma
condenação tão cruel não tiveram como disfarçar, pois,
se pudessem, com certeza o fariam.

Passei toda minha infância e adolescência com as
pessoas tentando corrigir minha feminilidade. Muitas
vezes eu tentei, mas não adiantou. Foi mais fácil
virar “mulher”.
Acredito que lutar por uma cidadania plena começa em
não se camuflar e aceitar a sua identidade. Temos de
ser aceitos como somos, não como nossos opressores
desejam nos moldar.

Tenho o maior respeito pelos ativistas gays, mas
acredito que eles deveriam começar a pensar mais sobre
isso, aliás, muitos ativistas pensam da mesma forma
que a maioria e detestam efeminados. Conheço um
célebre militante que se vangloria de ter conseguido,
com muito esforço diante do espelho, uma atitude
masculina.

Se quisermos mudar o mundo a nossa volta, temos
primeiro que mudar o nosso próprio mundo interior, nos
aceitando de verdade e por inteiro.

O professor Jean Wyllys estava certo ao afirmar, em
entrevista para a G Magazine, que os travestis
(leia-se também efeminados) estão na vanguarda da luta
contra o preconceito, e que eles formam um escudo que
protege os gays da hegemonia homofóbica. É assim: com
a visibilidade das “transgressoras”, os gays mais
parecidos com héteros se tornam mais “limpinhos”.

Jean provou saber das coisas, assim como o filósofo
Richard Rorty, quando diz: “Não pergunte o que é ser
masculino ou feminino, nem como podemos nos descrever
enquanto homens ou mulheres. Pergunte como podemos
buscar formas mais belas e harmônicas de vida”.


Claudia Wonder

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1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Oi Irina,

Adorei o artigo!!! Concordo plenamente!!!

Beijos!
Tati

19/7/05 8:11 PM  

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