18 julho 2005

Os últimos 30 anos revolucionaram o casamento

Recentemente, saiu uma matéria no NY Times e veiculada
pelo site ATHOS GLS sobre o livro "Marriage, a
History: From Obedience to Intimacy or How Love
Conquered Marriage" ("Uma História do Casamento: Da
Obediência à Intimidade, ou Como o Amor Conquistou o
Casamento") e uma entrevista com sua autora Stephanie
Coontz, leiam abaixo parte da entrevista e quem se
interessar, pode acessar a matéria toda no site:
http://www.athosgls.com.br/index.php?page=ver_noticias&cmd=290&mid=20

Os últimos 30 anos revolucionaram o casamento
"Papel da mulher era fornecer sexo e cuidar da casa.
Isso acabou"

Claudia Dreifus
Em Boston

Embora muitos historiadores passem as suas vidas
examinando documentos sobre presidentes
norte-americanos ou generais da Guerra Civil, o
território de Stephanie Coontz é ao mesmo tempo mais
mundano e mais contencioso.

Coontz, 60, professora de Estudos sobre a Família na
Faculdade Estadual Evergreen, em Olympia, Washington,
pesquisa o processo de formação das famílias ao longo
da história. A sua especialidade é a história do
casamento.

O seu quinto livro sobre o tópico, "Marriage, a
History: From Obedience to Intimacy or How Love
Conquered Marriage" ("Uma História do Casamento: Da
Obediência à Intimidade, ou Como o Amor Conquistou o
Casamento"), acabou de ser lançado pela editora
norte-americana Viking.

A revista "Publisher's Weekly" disse que Coontz
"apresenta os seus argumentos de forma clara,
proporcionando um excelente equilíbrio entre o
acadêmico e o assimilável pelo público comum neste
livro atual e importante".

A família de Coontz inclui o marido, Will Reissner, um
aposentado de 60 anos da Northwest Airlines, e o
filho, Kris Coontz, 24, bombeiro que deve começar em
breve a Faculdade de Medicina.

"Eu estudo aquilo que vivencio", explica Coontz,
enquanto saboreia uma taça de vinho. No mês passado
ela visitou Boston para promover o novo livro.

The New York Times - Como foi que você desenvolveu
aquilo que certas pessoas podem considerar uma
especialidade incomum, a história do casamento?

Stephanie Coontz - Quanto enveredei por esse caminho,
nos anos 70, era um campo realmente bizarro. Eu era
formada em história política e econômica. Em 1975, que
foi o ápice do movimento feminista, pensei em escrever
um livro sobre a história das mulheres.

Mas ao buscar um tópico, percebi que havia poucos
pontos no decorrer da história nos quais homens e
mulheres interagiam. Finalmente, a idéia surgiu para
mim: "Ah, veja a família. É esse o ponto no qual houve
interação".

Nos anos 70, a história da família ainda não era tida
como um campo de estudos sério. Fiquei apavorada com a
possibilidade de que outros historiadores rissem de
mim. Chamei o meu livro de "The Social Origins of
Private Life" ("As Origens Sociais da Vida Privada").

Deveria ter sido "As Pompous as You Want to Be" ("Tão
Pomposo Quanto Você Quiser Ser"). Cada sentença era um
jargão acadêmico, e se eu dissesse X, explicaria com
Y. O novo livro não tem nada disso.

NYT - Qual a tese central do novo livro?

Coontz - A de que o casamento mudou mais nos últimos
30 anos do que nos 3.000 anos anteriores. Isso
aconteceu em grande parte devido ao fato de as
mulheres terem mudado tão dramaticamente.

No decorrer da minha vida, o casamento, que era uma
instituição rígida na qual o papel dos gêneros era
estritamente definido, se transformou naquilo que
atualmente vemos com freqüência --parcerias. Até
meados do século 20, sustentar a família era papel do
homem. O papel da mulher era fornecer sexo e cuidar da
casa. Isso acabou.

Em três décadas, nos livramos de todas as exigências
legais e políticas de que as mulheres sejam
subordinadas aos seus maridos. Ao mesmo tempo, as
mulheres conquistaram independência econômica, de
forma que não são subordinadas.

Também eliminamos as leis que penalizavam as crianças
rotuladas de ilegítimas. Tomando todos esses fatores
juntos, temos uma mudança na história humana tão
dramática quanto a Revolução Industrial.

NYT - Os românticos do final do século 18 tentaram
reformar o casamento?

Coontz - Sim, isso fez parte do Iluminismo, a demanda
pelo casamento por amor. Os defensores daquilo que à
época era um casamento tradicional, um casamento
arranjado, ficaram horrorizados.

Eles disseram: "Se as uniões com base no amor se
tornarem a norma, teremos pessoas vivendo juntas sem
casamento, parcerias homossexuais, divórcio e
ilegitimidade".

Eles estavam certos. A união por amor era
desestabilizadora. Mas as implicações radicais da
"revolução do amor" não seriam colocadas em prática
até que as mulheres contassem com métodos confiáveis
de contracepção e fontes de renda independentes. E
isso demorou mais 200 anos para ocorrer.

NYT - Alguns críticos se perguntam se as mudanças no
casamento foram boas para os filhos. Você simpatiza
com tais preocupações?

Coontz - Certamente a situação para as famílias
modernas não é fácil. Mas, como sabemos, quando as
pessoas pensam de forma romântica nos casamentos do
passado, dizem: "O objetivo do casamento é garantir
que toda criança tenha uma mãe e um pai".

Mas durante milhares de anos, o casamento dizia
respeito a determinar quem seriam os parentes, fazer
alianças, determinar que criança tinha um direito aos
pais e à herança. Filhos ilegítimos não tinham
direito. Vários desses tradicionalistas idealizaram um
paraíso que nunca existiu.

NYT - Por que os anos 50 são freqüentemente tidos como
a era dourada das famílias norte-americanas?

Coontz - Parte disso tem a ver com a economia. A
década de 50 foi um período de otimismo, quando uma
legião de soldados que retornaram da 2ª Guerra Mundial
se mudou para subúrbios subsidiados e formou famílias,
tudo ao mesmo tempo. A economia estava em expansão,
assim como as esperanças nacionais, e havia uma
experiência compartilhada.

Contrastando com isso, estamos vivendo agora em uma
era na qual as disparidades sociais estão se
ampliando. Ao mesmo tempo, as mulheres desempenham
atividades assalariadas e não estão mais em casa.
Algumas pessoas se perguntam o que ocorrerá com as
crianças quando as mulheres não se sentirem mais
obrigadas a cuidar dos filhos.

Os norte-americanos acreditam que é possível ter uma
economia na qual o vencedor ganhe tudo, porque a
família nuclear zelará pelo altruísmo e as obrigações.

Assim, quando constatamos que parece que a família
nuclear não vai mais fazer isso, o sentimento é muito
assustador. Creio que grande parte dos critérios
sociais que influíram na votação durante a última
eleição presidencial foi alimentada por essa sensação.

Tudo isso veio à tona por causa da questão dos gays e
das lésbicas. Os Estados Unidos são uma das nações
mais sexualmente conservadoras do Ocidente,
especialmente quando se trata da homossexualidade.
Assim, para muitos eleitores, o fato de os gays
lutarem pelo direito ao casamento, enquanto os
heterossexuais procuram revolucioná-lo, foi a gota
d'água.

NYT - Como você encara o fato de os índices de
divórcio serem especialmente elevados em vários
Estados republicanos, como Oklahoma e Alabama?

Coontz - Vejo isso como um sinal de que as famílias
estão mudando tão rapidamente que os valores
estabelecidos são indicadores fracos dos
comportamentos reais. Os indivíduos educados têm mais
probabilidade de possuir um sistema de valores que
afirme não haver problema com o divórcio, mas eles
apresentam menor tendência a fazê-lo.

Os negros são mais propensos do que os brancos a
desaprovar a separação. E, no entanto, a praticam
mais. Oklahoma e Alabama apresentam altos índices de
divórcio. Em Massachusetts, o Estado mais conhecido
pelo liberalismo, esses índices são baixos.

NYT - Periodicamente, as revistas de notícias publicam
artigos sobre mulheres empresárias que deixam os
escritórios para se tornarem mães em tempo integral.
Sobre o que de fato tratam esses artigos?

Coontz - Uma expectativa irreal, é o que suspeito. As
estatísticas não indicam que tal fenômeno esteja
ocorrendo. O que elas revelam é que o rápido ingresso
de mães com filhos novos no mercado de trabalho se
estabilizou e caiu ligeiramente.

Em 1998, quase 60% das mulheres retornavam ao trabalho
antes que os filhos completassem um ano de idade.
Agora esse número é de 55%. Isso pode ser um sinal da
revolução se consolidando, em vez de se revertendo.
Atualmente muitas mulheres têm confiança para dizer:
"Posso negociar licenças mais longas, e se não puder,
pedirei as contas e conseguirei outro emprego mais
tarde".

NYT - Você diz que um componente-chave da revolução do
casamento tem sido a capacidade da mulher controlar a
sua fertilidade. Será que essas mudanças continuarão
se o aborto se tornar ilegal?

Coontz - Isso não vai mandar as mulheres de volta para
casa. Haverá uma crescente polarização entre as opções
disponíveis para as mulheres afluentes e as pobres.
Mulheres afluentes encontrarão maneiras de contornar
as leis restritivas ao aborto, e as mulheres pobres
ficarão sem opção. Creio que a revolução do casamento
é uma mudança social grande demais para ser revertida.
Não é possível acabar com ela.

NYT - Qual é o aspecto mais positivo da revolução do
casamento?

Coontz - O quanto os homens mudaram nestes últimos 30
anos. Nunca se via homens com os filhos. Atualmente os
maridos acreditam que fazem muito mais trabalhos
domésticos do que de fato fazem, mas eles estão
realizando algo de fato. Quando vejo os
relacionamentos maravilhosos e respeitosos que o meu
filho e os seus amigos mantêm com as mulheres em suas
vidas, enxergo algo realmente novo.

NYT - Qual é a história conjugal da historiadora do
casamento?

Coontz - Eu passei pelo tipo de vida complexa sobre a
qual escrevo. Fui mãe solteira durante 12 anos. Fui
noiva. Me casei. Aí descobri que estava grávida e
optei por ter o meu filho por conta própria. Eu era
professora e tinha trinta e poucos anos. Tinha
condições de arcar com as despesas. Doze anos mais
tarde, um outro homem, Will --uma paixão dos tempos de
faculdade--, reapareceu em minha vida. Nos casamos, e
ele se tornou um segundo pai para o meu filho.

A minha história ilustra aquilo sobre o qual eu às
vezes escrevo. Não se pode julgar a saúde de uma
família pela forma que ela assume em um dado momento.
Atualmente, as pessoas chegam a boas posições por meio
de rotas bem estranhas. Também é verdade que os
indivíduos podem seguir rotas bastante tradicionais e
acabar em situações muito ruins.

Tradução: Danilo Fonseca
The New York Times

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