14 janeiro 2006

PATERNIDADE COR DE ROSA

Paternidade cor-de-rosa
SORAYA BELUSI

Quando, há muitos anos, Leão Lobo ouviu de uma
cartomante que seria pai, ficou descrente de todas as
outras previsões que a tal mulher havia feito. Naquele
momento, era inacreditável para ele, já então
homossexual assumido, acreditar que um dia
experimentaria a paternidade.

Mas as cartas não erram nunca, diriam os mais crentes.
E, nesse caso, estavam mesmo cobertas de
razão.

A história contada pelo jornalista e atual
apresentador da TV Bandeirantes, em entrevista ao
Magazine por telefone, foi lembrada por ele somente
muitos anos após o nascimento de sua filha, Ana
Beatriz, ou Bia, como é chamada pelos familiares, hoje
com 14 anos.

“Lembro que comecei a rir quando aquela mulher
garantiu que eu teria uma filha. E ela ainda disse:
‘eu sei que você é gay. Mas você será pai’”, conta
Leão, em casa, ao lado de sua filha que acabara
de passar por uma cirurgia.

Entre um fato contado e outro, o jornalista faz
pequenas pausas para responder às demandas de Bia –
beijos de boas-vindas, por exemplo –, e se recorda
como toda essa história começou.

“A mãe da Bia veio trabalhar aqui em casa. Em poucos
meses que ela estava aqui, fiquei sabendo que
ela havia tentado um aborto em uma clínica clandestina
e teve algumas complicações. Então, a ajudei,
a levei para uma clínica séria, para resolvermos os
problemas”, conta.

“Pouco tempo depois, ela arrumou um outro namorado,
engravidou, e estava morrendo de medo de me
contar, com medo de ser despedida. Minha irmã,
psicóloga, disse a ela que eu não só não a mandaria
embora, como, com certeza, iria ajudar. E assim eu
fiz: assumi que iria ajudar a criar essa
criança”, afirma.

Mas as coisas não são tão simétricas quanto parecem.
Para quem achava que ia apenas ajudar a criar,
a figura paterna começou a falar mais alto.

“Fui acompanhando a gravidez, me apaixonando pela
idéia de ser pai. Mas ainda não conseguia chamar a
Bia de filha. Até que, pouco antes dela nascer, a mãe
dela veio me perguntar se preferia o nome
Camila ou Ana Beatriz. Respondi a ela que preferia Ana
Beatriz, mas que ela deveria escolher. Quando
a enfermeira saiu da sala de parto, disse: ‘olha a
Camilinha, papai!’. E eu respondi: ‘É Ana
Beatriz’. Naquele momento percebi que já estava
bancando uma de pai”, lembra Leão, que logo ligou
para a redação da revista “Contigo!”, onde trabalhava
na época, para contar que a filhinha nasceu.

“Foi uma tremenda gargalhada”, reconhece. A questão da
homossexualidade de Leão Lobo nunca foi
assunto tabu. Mas o jornalista não esquece a forma que
sua filha ficou sabendo de sua orientação
sexual, quando estava com apenas cinco anos.

“Havia brigado com a mãe dela (que já não mais
trabalhava para ele), estava com a perna sangrando e
a Bia viu. Ela logo veio me abraçar e pedir a mãe dela
para não fazer aquilo com o ‘papai’. A mãe
logo começou a gritar que eu não era o pai dela, que
eu era gay, e daí por diante”, conta.

Leão tratou de ligar para a irmã psicóloga e pedir um
conselho seguido com sucesso. “Me aproximei da
Bia e comecei a explicar toda a situação como se fosse
uma fábula. Ela tapou os ouvidos e não quis
mais ouvir. Então eu disse a ela, que quando ela
quisesse saber, era só me perguntar. E, alguns dias
depois, assim ela fez. Perguntou um pouquinho, e
outro, e assim foi tomando consciência de toda a
verdade, cada dia um pouco mais”, recorda.

A experiência de Leão Lobo reverbera em outras,
espalhadas ao redor do mundo. Segundo estudo feito
pela associação homossexual italiana Arcigay e pelo
Instituto Superior de Saúde daquele país, 20,5%
das lésbicas e 17,7% dos homens gays italianos com
mais de 40 anos de idade têm ao menos um filho.

A pesquisa é a mais longa produzida na Itália sobre a
população homossexual e bissexual. Segundo a
Arcigay, há na Itália um chamado “baby boom” entre os
casais homossexuais, o que confirma dados
análogos registrados em outros países.

Missão a cumprir
Mais do que estatísticas, há quem acredite que o
destino está mesmo marcado. Pioneiro do movimento
gay em Minas Gerais, o também jornalista Edson Nunes
acredita que ser pai era uma missão a cumprir.

“Tem toda um contexto espiritual na minha escolha em
exercer a paternidade. Sou espírita e vivi uma
história, como se fosse uma revelação de que em outras
vidas eu havia sido um pai que não cumpriu da
melhor forma suas funções e nessa vida eu viria para
ter uma função dupla de pai e mãe”, explica.

Foi com essa motivação que, em 1971, Nunes adotou o
primeiro de seus seis filhos, ainda sem ter
assumido sua homossexualidade. “Ela foi adotada quando
a minha mãe ainda era viva. Isso me fez ter
muito apoio da família”, reconhece. Já a partir do
segundo filho, adotado em 1984, as coisas não
foram tão tranquilas.

“Como já era militante ativo, alguns conhecidos
falavam que meus filhos quando crescessem teriam
problemas, como se essa (ser gay e ter filhos) não
fosse uma atitude que combinasse com a
militância”, analisa.

“As pessoas diziam que, se ao menos eu fosse uma
pessoa escondida, tudo bem. Mas como era uma pessoa
pública, meus filhos ficariam expostos. Mas sempre
respondi que minha orientação sexual é
absolutamente natural e que esperava ter estrutura
para dar a eles condições para suportar as
pressões sociais”, afirma.

Nunes não esconde que as reações dos filhos nem sempre
eram as mais tranquilas. “Já houve filho meu
que chorou pedindo para eu deixar de ser gay. Procurei
dialogar, conversar, passar aquela estrutura
que sempre imaginei. Sempre disse a eles, e repito,
que o mundo é cheio de preconceitos e se formos
curvar a cabeça, estamos estagnando a história. E o
meu objetivo é contribuir para transformar a
sociedade em algo melhor”, garante.

“E a minha filha mais velha, hoje com 34 anos, é um
apoio muito forte. Se alguém faz uma piadinha ou
fala pejorativamente de um gay na frente dela, se dá
mal”, afirma.

Surpresa
A forma como os filhos lidam com a orientação sexual
de seus pais às vezes surpreende. Roberto
Kaiser, que ocupa entre outros o cargo de vice-
presidente da Associação Brasileira de Gays e de
presidente da ONG de direitos humanos de Curitiba
Inpar 28, ficou chocado quando sua filha mais
velha, Gabi (Gabrielle), na época com 16 anos, lia
Simone de Beauvoir no sofá de sua sala, fechou o
livro e o questionou: “Quando você vai parar de nos
enrolar e contar que é gay?”, fuzilou a
adolescente, atualmente com 18 anos.

Kaiser ainda teve Carol, hoje com 16 anos, ambas fruto
de um casamento de seis anos. “Fiquei
atônito, sem saber o que fazer. Ela me abraçou por
trás e disse: ‘seu bobinho, eu amo você como você
钔, recorda Kaiser, que só então soube como sua filha
havia feito tal descoberta, para afirmar com
tanta segurança sua orientação sexual.

“Ela me contou que estava na aula de informática,
aprendendo a usar aquelas ferramentas de busca e
sugeriu colocar o nome do pai, já que eu era
presidente de uma ONG. E o meu nome apareceu com uma
foto na Parada do Orgulho Gay em São Paulo, como
embaixador da causa gay etc. E todos os colegas de
sala perguntaram: ‘seu pai é gay?’”, conta Kaiser, sob
risadas.

A história de Kaiser já rendeu matéria de longas
laudas na revista “G Magazine”, que tem como editor
chefe o também homossexual assumido, pai de dois
filhos e avô de duas crianças, Jayme Camargo.
Camargo passou por dois casamentos, segundo ele, na
época em que ainda se acreditava em “opção
sexual”.

“Achava que eu poderia ser bi”, justifica. Do segundo
matrimônio, que durou cinco anos, nasceu um
casal de filhos: uma menina, atualmente com 35 anos, e
um menino, de 36. A abordagem sobre a
homossexualidade do pai, aconteceu primeiro com a
filha.

“Já era crescidinha, estava com 14 anos e senti que
ela notou que eu estava andando só com homens.
Chamei para conversar e expliquei as coisas. Ela ficou
aparentemente tranquila, mas na verdade,
chocadíssima. E, depois, foram anos para deglutir
aquela informação”, conta Camargo, garantindo que
hoje a relação entre pai e filha é das melhores.

“Inclusive, eu e meu companheiro vamos constantemente
à casa dela e é sempre ótimo”, afirma. O filho
só foi saber por volta dos 20 anos, quando passou a
trabalhar na revista comandada pelo pai.

“Alguém na redação comentou que eu era gay e ele ficou
sabendo. me ligou na hora e perguntou se era
verdade. E eu falei que sim, naturalmente. A reação
imediata dele foi ficar bravo por eu não ter
contado antes”, recorda.

A figura paterna de um homossexual, segundo os
entrevistados e suas experiências pessoais, não
altera para pior a relação entre pai e filhos.

“Ao contrário, noto que no tempo em que convivi com os
meus filhos eu era o único pai que estava em
todo lugar que na sociedade hetero a mãe normalmente
deveria estar: na reunião da escolinha, na hora
de ensinar a nadar, de conversar determinados
assuntos. Já que admitimos essa presença feminina na
gente, compreendemos também todas as implicações”,
analisa Camargo.

Fonte: Jornal O Tempo



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