10 fevereiro 2006

Fui casada e sou lésbica

Edith Lopes Modesto
Jéssica Gutierrez


Há algum tempo sei, por experiência adquirida com o meu grupo de pais[1], que as mães, cujas filhas já viveram casamentos ou noivados heterossexuais, têm mais dificuldade de aceitação do que as outras mães. E minha amiga Jéssica, que tem experiência própria sobre o assunto, confirma esse fato.
Na “fase da descoberta” da homossexualidade de seus filhos, a maioria das mães fica confusa, desesperada, e se culpa sem saber bem do quê. Mas as mães, cujas filhas foram casadas não se culpam de nada, pelo contrário. Elas podem se isentar da culpa porque pensam: “afinal, não fui eu que a criei errado. Ela que se desviou do caminho do bem que eu lhe ensinei, no meio da vida!”
Na “fase da descoberta”, todas as mães sentem-se frustradas, tristes, com raiva e, principalmente, sentem-se muito sós e desamparadas. Para elas, a aceitação é muitas vezes mais difícil do que para seus filhos! Por isso, depois da “fase da descoberta”, geralmente as mães passam à “fase da negação”:
Algumas mães fingem que aquilo não existe e não tocam no assunto. Como, se não falar sobre ele, fizesse o fato deixar de existir. E elas não conseguem perceber como essa atitude é perversa. Ou, então, as mães minimizam a importância do fato: “Ah, isso é uma fase... É pra chamar a atenção... Modismo... Essa menina sempre foi assim. Ela quer fazer desaforo pra mim. E concluem: – É coisa de jovem e tudo voltará ao normal, como sempre foi.”
Mas as mulheres, como as que já foram casadas, nem sempre se descobrem lésbicas ainda jovens e, mesmo assim, muitas vezes não conseguem o apoio de suas famílias. E suas mães argumentam: “Minha filha lésbica? Imagine... Ela foi casada... Ela já foi noiva...”
Algumas mães usam do recurso bem conhecido de culpar os filhos dos outros: “Eu bem falei que aquela garota não servia pra amiga... Outro nível... Olha no que deu!” E, principalmente as mães, cuja filhas foram casadas, sempre acham que a outra que é lésbica e está levando a filha dela para o mau caminho, já que, na maioria das vezes, não são duas “ex-héteros” que ficam juntas.
Não que as outras mães de homossexuais também não passem por tudo isso. Mas as mães, cujas filhas já tiveram relacionamento hétero, enroscam na “fase da negação” e, muitas vezes, não saem mais dela!
As mães de homossexuais recorrem à religião, fazem promessas, levam as filhas ao terapeuta, atitudes que são da conhecida “fase da defesa”, pela qual quase todas as mães passam. Mas as mães cujas filhas foram casadas apresentam um agravante que se divide em duas possibilidades. A primeira é quando as filhas não dependem financeiramente de seus pais. Nesse caso, os pais se afastam porque não podem manipulá-las e nem impedi-las de se assumirem. A segunda, é quando a moça volta para casa dos pais ao separar-se do marido. Nesse caso, vem a chantagem, vem os desmandos e é como se ela voltasse a ser criança. Outra possibilidade é a moça ter filhos do casamento hétero. Aí as conseqüências são terríveis! Os avós fazem chantagem emocional, dizendo-se preocupados com o bem estar dos netos e com todo o preconceito que eles sofrerão por essa “escolha” da filha.
Finalmente, as outras mães, cujas filhas não foram casadas, paralelamente às atitudes de negação, tentam adquirir conhecimento sobre a homossexualidade. Elas aprendem que as diversas orientações sexuais são naturais: não são aprendidas, nem são escolhas. Aprendem que existe a bissexualidade... Entendem que, na nossa cultura machista, a mulher é criada para casar e muitas delas fazem isso pela família, empurradas pelas injunções sociais, e, muitas vezes, nem as próprias moças percebem que foram manipuladas.
Mas as mães, cujas filhas já foram casada com homem, geralmente não se interessam em adquirir conhecimento algum, pois elas se agarram ao argumento de que as filhas são heterossexuais, sempre foram, e isso é um modismo, uma maneira de agredir a família... E ponto final.
Algumas dessas mulheres deixam de ver suas filhas e até seus netos, abrindo mão da alegria da convivência em família, e, o pior, elas negam às suas filhas o direito de ter o apoio e o carinho de suas mães.

[1] GPH – Grupo de Pais de Homossexuais – maes_de_homos@grupos.com.br