11 julho 2007

Amor incondicional

Amor incondicional
 
Dizem que o amor pelos filhos é o maior de todos. Motivados por isso, casais homossexuais batalham pela adoção
Fabiana Caso
 
Uma fotografia do cotidiano doméstico. A menina Theodora Rafaela Carvalho da Gama, de 6 anos, acorda, toma café da manhã, faz lição de casa, toma banho e se prepara para ir à escola. Antes, almoça a comidinha feita pelo pai cabeleireiro, que atende as suas clientes no período da tarde para poder cuidar da filha pela manhã. Depois, ela vai à escola. E, à noite, os pais a levam para a casa da bisavó, porque dão aulas em sua escola de cabeleireiros. Finalmente, vão pegá-la e colocam-na para dormir. Um cotidiano igual ao de qualquer criança saudável, não fosse pelo fato de, neste caso, a palavra "pais" ser usada literalmente: são dois pais.

Os cabeleireiros e colunistas sociais Júnior de Carvalho, de 44 anos, e Vasco da Gama Filho, de 35 anos, foram os primeiros homossexuais brasileiros a conseguir o registro de dupla paternidade para adoção. Eles têm uma união estável há 15 anos e moram desde 1997 em Catanduva, onde mantêm um salão de beleza e uma escola de cabeleireiros. "Como todo casal, passamos por várias fases. Teve o namoro, casamento e depois começamos a pensar em constituir família", conta Júnior.

Em 1998, entraram com o primeiro pedido de adoção, indeferido pelo juiz. Há dois anos, tentaram novamente e o mesmo juiz acatou o pedido. Mas, a princípio, aconselhados por um advogado, pediram a adoção apenas em nome de Vasco, como solteiro. Na escolha da criança a ser adotada, a única exigência era a de que fosse uma menina. "Não sei se conseguiria ficar fazendo programas com um menino, como ir a um estádio de futebol", justifica Júnior.

Tudo aconteceu rapidamente e, há um ano e meio, receberam Theodora. "É uma alegria ter uma criança em casa, muda totalmente o ritmo. Nós ensinamos e também aprendemos muito", fala Júnior. "Descobrimos um amor incondicional", completa Vasco. Depois de algum tempo de convivência, quando a menina já chamava os dois de pai, entraram com o pedido de dupla paternidade, autorizado por uma juíza de Catanduva.

Nesse município de 120 mil habitantes, a comunidade apoiou a conquista. O casal, que já era conhecido porque escreve para jornais locais e para a revista Mix Brasil, recebe cumprimentos diariamente de "senhoras, senhores, pessoas de meia idade e jovens". "A Theodora é mimada por toda a cidade, eu preciso até puxar as rédeas", brinca Júnior. Ele conta que expuseram sua relação com muita naturalidade para a filha. "Dissemos que estamos juntos porque nos amamos, e amor não tem sexo. Para ela, é totalmente natural." E como é isso tudo para a pequena Theodora, que antes morava em um abrigo? "Eles gostam muito de mim e eu gosto muito deles", resume ela.

PROLE FARTA

A vitória de Vasco, Júnior e Theodora inspirou uma série de outros casais homossexuais que sempre quiseram adotar crianças. Os cabeleireiros João Amâncio, de 34 anos, e Edson Paulo Torres, de 41 anos, estão batalhando por isso. Curiosamente, as histórias são parecidas. Eles também estão juntos há 15 anos, mantêm parceria num salão de beleza e moram no interior de São Paulo, em Ribeirão Preto. "Depois que soube do caso do Vasco e Júnior, fiquei maluco. Nem conseguia mais dormir", lembra John, apelido pelo qual João é conhecido.

Experiência eles já tinham. John ajudou a criar os dois filhos biológicos do companheiro Torres, que moraram com eles até a idade adulta. "Sempre me deram presentes no dia dos pais, mas não me chamavam de pai. Eu queria muito ser pai de verdade", conta John. O companheiro respeitou a sua vontade e embarcou na busca pela adoção de uma criança. Começaram a visitar abrigos. Em um deles, a menina Suelin, de 10 anos, comentou que eles tinham cabelos bonitos, e disse que gostaria de ser cabeleireira. Ela lhes contou que ninguém queria adotá-la, pois tinha três irmãos dos quais não queria se separar. Mas acrescentou que, se fosse para morar com eles, aceitava ficar longe dos irmãos.

Só que eles decidiram adotar os quatro! E conseguiram a guarda provisória, afinal, quem quer separar uma família? Já está correndo o processo de tutela em nome de um deles, mas vão batalhar depois para registrar todos com dupla paternidade. "Além da questão da segurança material, é justo que tenham o nome dos dois pais pelos quais são criados", reforça John. Além de Suelin, seus irmãos Caroline, de 8 anos, William Henrique, de 6, e Ana Beatriz, de 4, moram na chácara do casal, onde há mata com bichinhos, represa e até uma charrete comprada por John para toda a família passear.

Eles estudam de manhã, ficam com uma babá à tarde e com os pais à noite. "Todo dia é uma descoberta", fala John. E seu companheiro Torres, apesar de já conhecer a paternidade, também está encantado. "Quando chegamos à noite e eles estão dormindo, Torres reclama que a casa está vazia." Orgulhoso, John fala sobre os avanços de Carolina na escola e diz que a média de notas de todos os irmãos é de 8 a 10. "Costumo dizer que isso é um resgate de DNA de alma. Meu amor pelos quatro é tão grande que parece que eles estão na minha vida desde sempre", emociona-se.

MÃE-MÃE

A enfermeira Kelli Crepaldi Lemos, de 28 anos, e a comerciante Sonia Baptista Nicolai, de 36, vivem juntas há dois anos. Mesmo antes de se conhecerem, as duas já queriam adotar uma criança. Ciente disso, um amigo as avisou de uma criança que seria doada a um abrigo.

Depois de toda a burocracia, Fernanda chegou à residência de Kelli e Nicolai, há um ano e três meses. Hoje ela tem 10 anos. Como já veio grande, houve muitas adaptações de ambas as partes no início. Quando a menina começou a questionar a relação das duas, lhe explicaram: "há meninos que gostam de meninas; meninos que gostam de meninos; e meninas que gostam de meninas. Quando você crescer, vai decidir do que você gosta." A sinceridade é o que mais valorizam. "O que mais cobramos dela é falar sempre a verdade."

Fernanda convive com casais hetero e homo que freqüentam a casa. Na sua última festinha de aniversário, por exemplo, as mães convidaram todos os seus amiguinhos da escola, professores, pais, tios e amigos, numa reunião de pessoas com idades, orientações sexuais, raças e religiões diversas. "É muito importante a convivência com a diversidade", fala Kelli.

Isso já acontece dentro de casa, afinal, Kelli é branca e Nicolai é negra, assim como Fernanda. Ao menos sobre a questão racial, Fernanda já aprendeu importantes lições com as mães. Kelli lembra que, pouco tempo depois de Fernanda chegar, ela a flagrou escrevendo, num exercício escolar, que o que mais queria era ser branca, e do que menos gostava era de si própria. Depois de um ano, o mesmo exercício teve resultado oposto, com respostas do tipo "eu me amo".

É com orgulho que Fernanda anuncia para todo mundo que tem duas mães: leva até fotos para os amiguinhos que não acreditam. No dia das mães, Kelli e Nicolai vão às festinhas na escola da filha, e no dia dos pais, também. "Vemos que o preconceito é coisa de adulto."

Como os outros casais, elas decidiram fazer a adoção em nome de Nicolai para depois batalhar pela dupla maternidade. Mas o processo ainda está em andamento. "Queremos que ela seja registrada em nome de nós duas para legitimar o fato de que está sendo criada por duas mulheres. Isso vai ser importante na história da Fernanda e também para derrubar um tabu", diz Kelli. "O importante é dar amor e colocar limites, ser uma família estável, não importa se o casal é homo ou hetero. Em um orfanato, a criança não tem isso. Podemos oferecer um lar, e tem tantas crianças precisando disso!"

ESTUDOS E LEIS

O Brasil é um dos recordistas em número de crianças abandonadas. Não há estatísticas exatas, mas um antigo levantamento apontou que há pelo menos 100 mil menores nessa condição. A psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, autora do livro Pais e Filhos por Adoção no Brasil (Juruá Editora), é uma autoridade no assunto adoção. "Estudos internacionais concluem que filhos de pais heterossexuais e homossexuais não diferem na orientação sexual, identidade ligada ao sexo biológico, desenvolvimento social e afetivo, sofrimento de distúrbios emocionais, independência e amor próprio", explica Lídia. "Mas mostram que a criança de pais ou mães homossexuais sofre mais discriminação."

Na sua opinião, só o quesito orientação sexual não deve ser motivo para recusa ou aceitação de uma adoção. "O adotante deve ser avaliado. Se o casal é afetivo, estável, responsável e compreende o que é educar uma criança e tudo que isso implica, é bom candidato. Porque, para uma criança que mora em uma instituição, é absolutamente depressivo não ser objeto de afeto."

Em vários países europeus e em alguns estados americanos, a união estável de homossexuais é reconhecida, e a adoção, permitida. No Brasil, a ONG Inova - Associação Brasileira de Famílias GLTTB (gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais) batalha há dois anos pelo reconhecimento legal da união estável homoafetiva e também pela adoção. Promove encontros, tem uma lista virtual de discussão e tenta sensibilizar políticos e juízes.

Uma das fundadoras, Irina Bacci, comenta: "podemos formar famílias. A principal crítica costuma ser quanto à influência na orientação sexual da criança. Só que isso é uma construção do indivíduo, um desejo pessoal. Se os pais influenciassem, eu não seria homossexual, porque os meus são hetero." E a falta de figuras masculinas ou femininas em casa? "Existem muitas mães solteiras e pais ausentes entre os casais hetero. A figura masculina ou feminina pode ser substituída por um tio, avô ou amigo."

Em tempos de novas dinâmicas familiares, a lei caminha devagar. A advogada Ivone Zeger, autora do livro Como a Lei Resolve Questões de Família (Mescla Editorial), explica que, como a lei não reconhece a união estável homossexual, também não prevê a adoção por parte desses casais. "No entanto, é permitido que solteiros com qualquer orientação sexual adotem crianças."
 
Fonte: Suplemento Feminino - Estadão - 10/07/2007
 


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